Relatos da realização de um sonho
Passei fevereiro de 2026 realizando um sonho de infância: viajar ao Japão. Aqui reflito um pouco sobre a experiência e sobre como é turistar na era do Tiktok.
Passei o mês de fevereiro realizando um sonho de vida: viajar para o Japão. Quando era uma criança que assistia a muitos animes e jogava Pokémon —* e a realidade do valor de uma passagem aérea para o outro lado do mundo não passava pela cabeça — prometi a mim mesmo que essa seria a primeira viagem internacional da minha vida.
Não foi o caso, bem longe disso, mas as condições mais favoráveis agora (iene mais acessível e isenção do visto para brasileiros) facilitaram a visita. Então respirei fundo para aguentar as cerca de 40 horas de viagem de Florianópolis a Tóquio e lá fomos nós.
O que encontrei lá foi uma mistura grande de sentimentos. Realização por finalmente estar em um lugar com o qual sonhei por boa parte da minha vida. Felicidade por comer alguns dos meus pratos favoritos (nunca comi tanto curry rice). Uma quebra de ilusão ao ver que aquele é um lugar real, com suas maravilhas e suas falhas, além de um espanto ao presenciar o momento histórico em que as redes sociais estão destruindo o turismo de vez.

Não teve síndrome de Paris
O que mais me fez refletir foi o choque de realidade. É muito estranho estar em um lugar que idealizei por tanto tempo. Não como um mundo perfeito, mas com uma imagem mental do que esperava encontrar, alimentada por anos e anos, ganhando solidez a cada vez que me aproximava um pouco da cultura ou conversava com pessoas que vivem ali. A mente vai pegando esses pedaços de informação e montando uma ideia que evolui com o tempo, mas dificilmente se aproxima da realidade. Duvido muito que qualquer pessoa que tenha imaginado algum lugar por tanto tempo e tenha finalmente o visitado possa dizer que encontrou ali exatamente o que esperava.
Já estava acostumado com essa quebra de expectativa. Aliás, é uma das coisas que mais gosto ao viajar: ver o que de fato é um lugar que só conhecia por relatos ou notícias. Quebrar ilusões, absorver tudo ao máximo para criar uma nova e melhorada ideia (ainda longe de ser real, mas melhor do que antes). Em alguns casos, esse choque pode ser decepcionante. Nessa viagem, foi mais que tudo um alívio.

Sempre achei que ia pirar em Tóquio, delirar nas lojas de videogames vintage em Akihabara ou comprar compulsivamente objetos inspirados em algum dos meus jogos favoritos. Não vou negar que gostei. Deixei a atmosfera do consumo desenfreado e de maquininhas de gacha infinitas me dominar por um tempo. As luzes por todos os lados, o excesso de informação com caracteres que não faziam sentido para mim, as vozes dizendo palavras que eu não compreendia. Tudo aquilo me falava: você está aqui mesmo. É maravilhoso, sim, mas não é nada tão surreal quanto o que está na imaginação.
Quando falamos em ir para outro lugar, a primeira coisa em que pensamos são as coisas construídas pela humanidade. As cidades, a cultura, a comida. Mas antes de tudo isso, e com uma influência que embasa muito do que foi criado depois, vem a própria terra, o lugar físico onde aquilo tudo foi construído. Assim como as cidades, as áreas naturais de cada lugar são diferentes, com outra vegetação, outros cheiros, outros sons de pássaros e insetos. Eu também precisava de um pouco disso.
Por sorte, a necessidade de paz bateu bem na hora em que íamos para o que seria o meu momento favorito da viagem: alguns dias em Fujikawaguchiko, na base do Monte Fuji. Se Tóquio foi a concretização de uma imagem de infância, no Fuji encontrei o Japão que conhecia menos e que me agradou mais nessa fase da vida.

Natureza, frio e paz em Fujikawaguchiko
Uma cidade pequena — que sim, tem sua cota de turismo de massa, mas muito menos do que as metrópoles — com um lago lindo, uma orla para andar de bicicleta e o onipresente vulcão que me fez parar de pedalar a cada dois minutos para poder vê-lo só mais um pouquinho por novos ângulos.
Era a paz e calmaria que só tinha sentido através das descrições de paisagens interioranas nos livros do Murakami ou pelas longas cenas apreciativas das animações de Miyazaki. Um lugar onde podia me sentar para apreciar a vista e mais nada, sem os estímulos constantes, as cores, luzes e sons implorando por atenção.

Turismo de Tiktok
Nas cidades, além do caos do dia a dia dos milhões de pessoas se locomovendo de todos os lados para trabalhar, o turismo de rede social é o que deve deixar os japoneses loucos. Nunca vi tantos celulares quanto no cruzamento de Shibuya. Jovens se filmavam para fazer sua versão do vídeo de uma trend em que a pessoa tem que correr o mais rápido possível até o meio do cruzamento antes de toda a multidão. Turistas empilhados atrás do vidro de uma Starbucks no segundo andar de um edifício, todos fazendo exatamente o mesmo vídeo em time-lapse para postar. Ruas pequenas abarrotadas de gente depois de terem figurado como must see nos vídeos de influencers, assim como uma pequena loja de donuts com uma fila de horas. Imaginei o que pensaria caso eu vivesse ali e só quisesse chegar em paz ao trabalho. Nada muito bom.
Talvez por isso, hoje há um movimento de pessoas implorando para que visitantes não postem a localização dos lugares onde foram ou tiraram fotos. Antes da chegada a Fujigawaguchiko, por exemplo, há um famoso pagode com vista para o Monte Fuji que virou uma parada de bate e volta de ônibus de Tóquio, onde hoje se forma uma enorme fila de pessoas para tirar a mesma foto. Na mesma região, há pouco tempo, uma kombini local resolveu tampar a vista depois que multidões de turistas começaram a ocupar o estacionamento do lugar para tirar uma foto igual às milhares de outras que viram online.

Mas esse problema com certeza vai muito além do Japão. Não consigo imaginar, por exemplo, como deve estar a Coreia do Sul depois da explosão dos K-dramas e do K-pop. Já via isso há dez anos quando o Instagram levou fotos de viagem a um novo patamar, mas agora parece que as coisas tomaram outra proporção. Enfim, o que posso dizer se sou parte do problema? Posso não estar fazendo uma live enquanto as pessoas só querem atravessar a rua, mas estava contribuindo para deixar o metrô mais cheio do que devia num dia qualquer.
Um pouco irritado com essas coisas, em alguns momentos da viagem resolvi me dedicar a fotografar turistas fazendo turistagem. Como pessoas fugindo de veados em Nara depois de comprar pacotes de biscoito para alimentá-los, casais europeus alugando quimonos para tirar fotos nas ruas de Quioto e caminhar pelos templos, ou pessoas que acham uma ideia genial pagar para andar por aí sentados em uma carroça puxada por uma pessoa, sentindo-se como nos velhos tempos.

Não tenho dicas por aqui
Fazia tempo que não passava tanto tempo em uma viagem, especialmente uma que não fosse de trabalho. É capaz de que a realização de um sonho e o tempo livre da cabeça para pensar nas coisas que absorvia e conhecia ao meu redor tenham gerado um vislumbre do mundo moderno que ignorava até então.

Ainda assim, honrei todos os meus sonhos de infância. Visitei o museu da Nintendo, que até hoje consegue me assaltar enquanto põe um sorriso na minha cara. Conheci tantos templos budistas e xintoístas que perdi a conta. Toquei pianos Yamaha que devem valer mais do que a minha casa e que soam mais imponentes do que eu jamais poderia imaginar. Comi tudo o que sempre quis até dizer chega, gastei moedinhas nas máquinas de gacha, peguei trens para todos os cantos, e até voltei com uma versão física de um álbum da Hako Yamasaki (um dos meus atuais favoritos).
Se você veio aqui buscando dicas de viagem ou um relato mais estruturado, peço desculpas por ter desperdiçado o seu tempo. Já tem gente demais fazendo isso por aí e eu só queria compartilhar sentimentos talvez não muito concretos, além de ter uma desculpa para postar as fotos longe das redes sociais.
*Eu uso travessão e não vou deixar a IA tirar isso de mim.