Aprender música depois de "velho"
A jornada de aprender música com uma vida nas costas e como isso foi uma das melhores coisas que já fiz.
Para começar, o “velho” aqui é bem relativo. Se você for um jovem da geração Z, eu devo ser uma múmia com meus 37 anos. Mas sejamos honestos, esse leitor fictício não deve estar visitando um blog em pleno 2026. É mais provável que esse texto caia nas mãos de outras pessoas que, assim como eu, têm interesse em aprender a tocar algum instrumento ou entender melhor como a música funciona depois de já terem o peso da vida adulta nas costas por algum tempo.
A minha experiência com instrumentos musicais não foi diferente da de muitas outras pessoas da minha geração. Comecei a aprender flauta no colégio, quando fui apresentado às partituras de Asa Branca e a alguma música de Kenny G da qual lembro as notas até hoje. Na época, foi um pouco traumático. Incapaz de entender como aquelas bolinhas se traduziam em instruções para fechar determinados buracos na flauta antes de soprá-la, tirei na disciplina de música a nota mais baixa de uma prova até então: 2.
Por sorte, minha família está repleta de músicos amadores. Com a ajuda de uma tia que, entre outros instrumentos, também tocava flauta, pude finalmente entender um pouco da lógica por trás daquela misteriosa nova língua. A vez seguinte foi mais tranquila: errei uma única nota na prova em que tínhamos que tocar a partitura escrita na lousa individualmente. Voltei pra casa com um 9,5.
Mas bastou a disciplina acabar para que aquele conhecimento fosse soterrado por milhares de outras coisas mais interessantes (ou necessárias) na época.
A adolescência: um violão e um sonho
Quando voltei a praticar música, já adolescente, com um violão DiGiorgio de estudante que ainda está aqui na parede de casa, meu foco era outro. Queria mesmo era conseguir tocar alguma música das que eu escutava, e rápido. Não perder tempo entendendo partituras mais uma vez. Queria saber como acompanhar meus amigos no intervalo quando cada um de nós ensinava ao outro a última música que tínhamos tirado. Aí entraram as cifras, aqueles pequenos desenhos que representavam o braço do violão, onde as bolinhas eram mais intuitivas e mostravam quais cordas meus dedos deveriam apertar.
Naquela época, porém, as coisas eram um pouco mais complicadas do que hoje. O Cifra Club ainda devia estar nascendo, assim como o acesso à internet em casa. As poucas pessoas que podiam pegar cifras e tablaturas online as levavam impressas para o colégio. O jeito mais fácil, então, era comprar revistinhas de cifras nas bancas de jornal.
O problema de aprender a tocar violão a partir de cifras era que eu só reproduzia as formas que eu memorizava, sem entender direito por que estava fazendo aquilo e muito menos dando vida à música. No fim das contas, eu tocava uma simplificação das harmonias. Mesmo com as tablaturas e, mais tarde, com o Guitar Pro, no fundo, estava só reproduzindo o que eu via. Não tinha conhecimento para pegar o instrumento e inventar coisas.
Por muitos anos continuei assim. Usava o violão e a guitarra para me divertir. Aprendia alguma música nova da qual eu gostava; tinha uma felicidade rápida por conseguir reproduzir um pouco daquilo que ouvia e partia para a próxima. Mas senti que já não melhorava, que não aprendia nada de novo. Até que, há pouco mais de dois anos, já com quase 35 anos de idade, decidi aprender a tocar piano.
Entendendo a música
Enquanto as cifras do violão são facilmente reproduzíveis, o piano te força a pensar. Claro, existem cifras de piano e até vídeos animados que mostram como tocar uma música memorizando a ordem das teclas por números ou por blocos coloridos que caem sobre elas, como se tudo fosse uma fase de Guitar Hero, só que bem mais difícil. Mas estes são métodos menos simples do que os do violão. Para aprender de verdade, precisei olhar de novo para as partituras que não via há décadas e, a partir delas, para todo um mundo de teoria musical.
Ao contrário da minha adolescência distante, hoje não faltam recursos para aprender teoria musical. Enquanto antes dependíamos de livros monótonos que foram escritos em um mundo diferente do nosso, ou apostilas técnicas que tentavam descrever em palavras o mundo dos sons, hoje a internet abriu uma nova era de possibilidades.
A principal mudança que me ajudou foi a existência de vídeos. Eu odeio, com todas as minhas forças, precisar assistir a um vídeo para navegar por qualquer tipo de tutorial. Seria muito mais feliz com um texto e uma imagem. Mas com a música é diferente. Conseguir acompanhar o tempo e o som enquanto se aprende a enxergar a música escrita faz uma diferença enorme. Antes, isso só era possível com o auxílio de um professor ou um amigo que tivesse paciência para ensinar. O repositório de informações que existe hoje não só cobre a maior parte dos tópicos que precisava aprender, como também oferece uma diversidade de canais para escolher, de acordo com a técnica ou o estilo musical usado para ensinar.
Enquanto alguns canais mais simples, como o do brasileiro Milo Andreo cobrem assuntos básicos que ajudam qualquer iniciante a entender o que fazer no teclado ou no piano, outros mergulham mais a fundo na teoria. O meu favorito nesse segundo caso é o 8-bit music theory, que usa trilhas sonoras simples de jogos para analisar e explicar conceitos da teoria musical.
Além dos vídeos, os tradicionais sites de cifras também evoluíram muito. Além do Cifra Club, outros como o Ultimate Guitar e o Musescore têm uma infinidade de tablaturas interativas e partituras que posso reproduzir nota a nota, na velocidade que quiser, repetindo apenas um trecho e acompanhando os demais instrumentos. Não sei nem como dizer o quanto isso facilitou o aprendizado.
Como eu também gosto de me cercar do assunto que estou estudando, decidi ler alguns livros sobre música. Não necessariamente sobre teoria, mas para entender como ela funciona e até me entreter, sabendo mais sobre a trajetória e a carreira de algumas pessoas que dedicaram suas vidas a essa forma de arte. Entre eles, destaco 3:
1. How Music Works, de John Powell: o autor fala da música desde uma perspectiva psicológica (por que gostamos de música) até explicações muito simplificadas da física que faz a música acontecer. Saí dessa leitura breve sentindo que toda a teoria musical faz um pouco mais de sentido.
2. How Music Works (sim, é o mesmo nome), de David Byrne: escrito pelo vocalista dos Talking Heads, o livro é uma mistura da sua carreira pessoal, da vida como um artista, de teoria musical e influências globais (incluindo a fascinação pela música brasileira).
3. Inside Out, de Nick Mason: uma leitura mais focada no meu gosto pessoal. Este livro foi escrito pelo baterista do Pink Floyd e conta a história da banda sob a sua perspectiva. Apesar de ser uma abordagem mais biográfica, me diverti lendo os relatos sobre como a banda criava suas obras, os perrengues e também as discussões que deram origem a algumas das músicas de que mais gosto.
Praticando e me divertindo
Quando voltei a estudar piano, a prática me cansou bastante. Estava aprendendo com uma metodologia mais tradicional em que eu aprendia uma música simples (na maior parte das vezes canções folclóricas gringas que nunca tinha ouvido), praticava em casa junto com alguns exercícios e voltava na semana seguinte para seguir com o professor. Isso não funcionou por muito tempo.
Um pouco depois, procurei uma alternativa que me permitisse retomar o que eu mais gostava na adolescência: tocar com outras pessoas. Focando mais no teclado do que no piano, pude tocar em grupo com quem também estava aprendendo seu próprio instrumento.
Ali a prática era outra. Eu me dedicava a tirar uma música que me ensinava algo novo não só porque sim, mas porque tinha o incentivo de aprender a tempo de ensaiar e ouvir como o conjunto todo sairia. Tocar em grupo também me ajudou a entender melhor as harmonizações e a perceber novas informações nas músicas que tenho ouvido há décadas. Foi só aprendendo a minha parte do teclado, por exemplo, que percebi quantas músicas usam o órgão para harmonizar a melodia.

Além de ser um bom jeito de manter a motivação e o estudo, tocar com outras pessoas é uma experiência meio surreal e recompensadora. É um pouco mágico como a música é criada: um monte de gente junta, fazendo ondas sonoras que, unidas, criam um negócio único, que dura poucos instantes e depende de uma sincronia entre todos. Ser parte desse processo e estar ali para ouvir o resultado vale todo o estudo.
Não tenho nenhuma conclusão ou ensinamento super interessante. Só gosto de dizer que nunca é tarde demais para aprender a tocar, especialmente com os recursos que existem hoje. A experiência toda é recompensadora. Então, se você chegou aqui porque está na dúvida e tem isso na cabeça há algum tempo: vai lá, não custa tentar.