Como o Spotify destruiu minha relação com a música

E a minha jornada para recuperá-la.

Como o Spotify destruiu minha relação com a música
Foto por Karolina Grabowska.

Esses dias o Spotify resolveu compartilhar com todo mundo algumas estatísticas pessoais, como os artistas e músicas mais ouvidos de todo o meu tempo na plataforma. Me disseram que entrei lá em 2014. Não fui nenhum pioneiro global, mas estive ali assim que o serviço chegou oficialmente ao Brasil. Na época, ainda ouvia muita música em .mp3 no meu celular, passava horas criando playlists no iTunes pensando em músicas que transmitissem um determinado sentimento, representassem um lugar ou momento ou fossem um diário musical da minha vida. O problema era que, ao longo dos anos, tinha acumulado música demais.

O “demais” de 2013 talvez não seja muito hoje — coisa de 150 GB em um HD externo, ou pouco mais de 100 GB no iPod Classic que convertia tudo para a menor taxa de bits e reduzia consideravelmente o tamanho da biblioteca. O celular, na época oferecia na melhor das hipóteses 16 GB de armazenamento, o que fazia com que eu tivesse que selecionar bem o que eu queria copiar para que coubesse na memória sem encher o dispositivo demais e impedir que eu tirasse fotos ou instalasse novos aplicativos.

Aí chegou esse serviço que prometia resolver meus problemas: ouça o que quiser, quando quiser. Não precisaria mais pensar no que colocar no celular antes de sair de casa. Se eu quisesse ouvir alguma coisa sem gastar meus dados, podia baixar uma playlist quando estivesse no Wi-Fi sem ter que estar amarrado ao meu computador. Além disso, com a memória positiva do que tinha experimentado alguns anos antes com o Pandora (como mencionei em outro post), criei grandes expectativas sobre as recomendações algorítmicas da plataforma. Mal sabia eu que estava prestes a começar a arruinar minha relação com a música; uma que levaria anos para recuperar.

Tudo o que você quiser. Ou o que eu disser que você quer

Até entrar no Spotify, a principal forma que eu encontrava músicas novas eram recomendações de amigos — em alguns casos trocando mixtapes virtuais, ou pastas de arquivos selecionados em um pen drive — ouvindo rádio, ou procurando um som que ouvi em algum lugar. Aí começava todo um processo de incorporar essas novas músicas à minha biblioteca, ouvir muitas vezes o álbum inteiro de onde elas foram tiradas e tê-las comigo “para sempre”.

Mas no Spotify existia a playlist que todos amaram por um tempo: Descobertas da Semana. Sempre com alguma coisa nova que o algoritmo acreditava que você fosse gostar com base no que você escutava na plataforma (o que não refletia, necessariamente, o que eu tinha escutado nos tantos anos anteriores da minha vida). No começo as coisas que apareciam eram um pouco aleatórias, mas com a dedicação certa para ensinar o sistema o que queríamos ouvir, ele melhorava. Parece uma loucura, em 2026, pensar que voluntariamente ensinávamos qualquer coisa para que robôs pudessem controlar um pouco mais nossas vidas.

Semana após semana, fui entrando mais naquelas novidades. Criei o costume de deixar ela em download automático, assim poderia sempre descobrir novos artistas quando estivesse na rua sem ter que me preparar para isso. Aos poucos, porém, tanto aquela playlist quanto as coisas que ouvia começaram a ficar sem graça. Como tinha assistido a um filme que me apresentou Of Monsters and Men, o algoritmo decidiu que eu gostaria muito de indie folk, estilo que passou por um pequeno surto naquele período e que logo fez com que minha playlist se enchesse de outros artistas similares, mas não tanto.

A escuta passiva dessas bandas fez com que o que até pouco tempo antes sentia quando ouvia músicas novas — empolgação, curiosidade sobre os artistas, um sentimento de que aquele som mexia comigo mesmo sem saber explicar porque — foi desaparecendo. Comecei a consumir músicas por playlists, não artistas e álbuns.

Aqui uso a palavra consumir deliberadamente. É isso que eu fazia: deixava as músicas ali, tocando, às vezes sorrindo por um breve segundo quando algo chamava um pouco a atenção, mas nunca ativamente procurando o que eu queria ou tentando descobrir nada novo. Percebi que, na maioria dos casos, nem sabia quem era o grupo ou artista que tocava uma música que tocou dezenas de vezes em uma playlist qualquer.

Percebi o impacto que isso teve na minha relação com a música esses dias, quando resolvi escutar minhas playlists anuais. Há muitos anos comecei a fazer playlists que servem como um diário do que ouvi em um período da minha vida. Uma retrospectiva do ano antes de ser cool e compartilhável. Ainda hoje, é um jeito que uso para voltar ao passado. Se eu fecho os olhos e coloco a playlist de 2013 consigo ver exatamente onde estava, o que aquele som representava para mim e a qual memória ele está atrelado.

Pois bem, logo percebi duas coisas: em primeiro lugar que desde que entrei no Spotify, todas as minhas playlists estavam ali. A plataforma era dona das minhas memórias. Claro que, ao longo dos anos, fiz backups das listas com os nomes das músicas e transferi elas para outros serviços. Mas, mais de uma década depois, não me surpreendeu que algumas daquelas músicas não existiam mais na plataforma. Ainda apareciam ali, com o nome em cinza. Presentes, mas impossíveis de escutar.

Em segundo lugar, ao ouvir playlists que fiz a partir de 2013, vi que as músicas ficaram cada vez menos marcantes e que, ano após ano, o tamanho da playlist ficava menor. Cheguei a pensar que isso poderia ter relação com o simples fato de que envelhecemos e que quanto mais isso acontece, menos empolgação sentimos e menos nos deixamos levar por coisas que durante a juventude significaram tanto. Só que as playlists não ficaram só menores, mas também cheias de artistas que não reconhecia, de músicas que logo depois daquela breve visita na minha vida nunca mais voltaria a ouvir não fosse meu hábito de manter esse diário musical. Ao longo do tempo elas significaram menos para mim e, ainda hoje, reacendem menos memórias do que quando ouço as que vieram antes.

O Spotify destruiu minha relação sentimental com a música, meu prazer de descobrir novos artistas e até como os descobria. Ele transformou uma relação de amor em uma de consumo.

A morte do streaming foi decretada, outra vez

Eu não fui a única vitima disso. Comecei a encontrar vários relatos similares pela Internet. Muitos deles foram bem citados pelo artigo “Como o Spotify matou o álbum” (em tradução livre) de Joel Gouveia, onde ele mostra como o modelo de streaming está mudando a forma como escutamos — e consequentemente como produzimos — música.

Não é uma grande revelação. O modelo de “álbum” também foi definido por uma tendência de mercado para que pudesse ser comercializado com a tecnologia disponível na época. Mas agora o mercado da música foi dominado por uma empresa de tecnologia. Cada vez menos o que ouvimos é resultado de ideias de artistas e gravadoras, e cada vez mais se trata de agradar as estatísticas da plataforma.

O mesmo autor também argumenta, em um post mais polêmico, que isso está prestes a mudar. Em“A Morte do Spotify: Porque o streaming está a alguns minutos de se tornar obsoleto” ele mostra como a relação de consumo mudou com base em um sistema do qual todos precisam mas ninguém está contente.

Pode ser uma previsão correta ou só mais uma discussão que vai morrer quando eles colocarem “mais IA” no sistema e receberem outra rodada de financiamento bilionário. Mas, depois da minha experiência, decidi voltar a 2013.

Desconectando o streaming, reconectando a música

Antes que me acusem de ludita, não vou falar aqui da minha jornada para me livrar dos streamings para sempre e voltar a baixar músicas no 4shared beneficiando ainda menos os artistas que já vivem de migalhas no mercado atual. Querendo ou não, essas plataformas são a forma mais eficiente de escutar músicas diferentes e passageiras, aquelas que queremos ouvir mas não nos importam o suficiente para nos fazer comprar um CD, vinil ou álbum digital no Bandcamp.

O ponto mais importante para mim foi mudar minha relação com as plataformas. Primeiro buscando uma que oferece uma experiência mais focada em música, com contexto dos artistas, músicas em alta qualidade e a taxa de pagamento para artistas mais alta do mercado. Depois, tentando me reconectar com o jeito de escutar música conscientemente e não apenas recebendo aquilo que o streaming nos empurra.

Resolvi começar voltando para a minha antiga coleção de CDs, que ainda é presente porém estagnada por anos sem receber qualquer novidade. Ouvi com calma alguns álbuns do começo ao fim, apreciando os encartes e todo o ritual. Ali já senti uma relação muito diferente, com todo o processo de escolha e o fato de ouvir a obra de um artista como pensada e não no meio de uma playlist qualquer.

Mas não quero propor também voltar a carregar um porta CDs e um diskman por aí (já tive uma parte da minha coleção roubada assim em uma vida passada).

Desenterrei um notebook velho, daqueles que ainda tem um leitor de CDs e DVDs, e comecei a passar toda a minha coleção para o computador em formato .FLAC, um tipo de arquivo de áudio que ocupa muito mais espaço mas tem uma compressão inteligente que não perde detalhes da música como acontece com o .mp3. Dia após dia, em um processo quase meditativo, copiei CDs enquanto escutava de novo aqueles que me chamavam a atenção. Em menos de uma semana tinha uma nova biblioteca digital.

O problema que tinha em 2013 hoje é quase irrelevante: o espaço no meu telefone é 16 vezes maior do que o melhor aparelho que tive naquela época podia oferecer. Coloquei minha nova biblioteca ali, baixei um aplicativo no Android para reproduzir as músicas offline e comecei a carregá-las comigo.

Nos meses desde que comecei a fazer isso percebi que estou sendo mais ativo na escolha do que vou ouvir quando vou caminhar ou antes de entrar no carro. Voltei a ouvir mais álbuns inteiros. Coloquei outros aspectos da relação com a música de volta na minha vida: vou visitar sebos e feiras procurando CDs usados. Em viagens de trabalho, vou a lojas procurar álbuns de artistas locais e voltei a tentar descobrir novas músicas intencionalmente.

Em certo momento fui um pouco longe demais. Desenterrei meu iPod Classic de 2008, instalei um novo firmware nele que me deixa usá-lo sem precisar passar pelo ingrato processo de sincronização do iTunes e troquei a bateria velha por uma nova que, pasmem, ainda vendem no Mercado Livre por 50 reais. Mas isso é uma outra história.

É um processo que, como dizem os gringos, adiciona um pouco de atrito ao dia a dia de ouvir música. Mas sem atrito as coisas não se prendem tanto à gente, e eu cansei de deixar os meus pequenos prazeres da vida caírem pelo caminho.